A ESTAÇÃO IMAGEM, com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo, atribui uma bolsa anual destinada à realização de um projecto documental sobre o Alto Minho. Os trabalhos são publicados em livro e divulgados através de exposições itinerantes. 

A TRADIÇÃO AINDA É O QUE ERA
António Pedro Santos


NARRAÇÃO

No norte de Portugal, ouro é sinónimo de Minho. Há mesmo uma cidade que utiliza a denominação de "capital do ouro": Póvoa de Lanhoso. É aqui que muitos artesãos trabalham delicados fios de ouro, de geração em geração. É chamada a arte da filigrana. Com esses finos fios de ouro entrançados (também podem ser de prata e até outros metais), os artesãos produzem peças como anéis, brincos, pulseiras, colares, entre outros. 

A filigrana portuguesa foi integrada no luxuoso património da joalharia em Portugal para representar temas variados da história, cultura e tradição portuguesa, do mar, natureza, religião ou o amor. São disso exemplo os corações de Viana do Castelo, as arrecadas, os crucifixos, os brincos de fuso ou à rainha, as cruzes de Malta, os colares de conta.

Além de constituir um adereço e marca de distinção social a filigrana portuguesa em ouro assumia também um investimento e uma mais-valia para as famílias. Seja por grupos sociais de condição elevada, seja por pessoas de menos posses, as peças da filigrana portuguesa são usadas como adereços valiosos para festas especiais como casamentos, adereços do vestido de noiva. São também encontradas no traje feminino dos ranchos folclóricos do Minho. É uma arte exclusivamente manual, exigindo dos artesãos um trabalho muito paciente, imaginativo e de grande destreza. 

A presença do ouro e os gostos das populações locais fizeram com que se produzissem peças de ouro com características muito próximas. A abundância de metais preciosos permitiu que aqui se desenvolvesse a ourivesaria, fazendo destas terras uma das regiões privilegiadas de todo o Mundo Antigo.

Preservando um forte cunho artesanal e assumindo-se como uma actividade importante na economia da região, a arte da filigrana representa todo um valioso património. As pessoas que trabalham neste ofício fazem-no geralmente em pequenas oficinas, que se dedicam à produção de pequenas quantidades de peças vocacionadas para modelos e técnicas de grande tradição. 

A ourivesaria tradicional portuguesa tem uma inspiração marcadamente religiosa e o coração de Viana não é excepção. Este coração que é utilizado como símbolo da cidade de Viana do Castelo, surgiu em Portugal com a enraização do culto ao Sagrado Coração de Jesus em finais do séc. XVIII. Símbolo que ficou mundialmente conhecido em 2005 com uma obra da artista plástica Joana Vasconcelos (Coração Independente Dourado), que ao recriar o ícone da cidade com talheres de plástico vermelho, pretendeu homenagear a técnica da filigrana.

 

MODO DE EXECUÇÃO

Partindo da tradição da filigrana em terras do Minho, o modo de execução do trabalho teria como ponto de partida o ouro em barra, até ao seu uso por parte das mulheres minhotas em eventos tradicionais. No caso de a Bolsa me ser atribuída, pretendo acompanhar o trabalho dos ourives que transformam o ouro há várias gerações, desde a Póvoa de Lanhoso até Viana do Castelo; documentar todo o processo nas suas mais variadas fases; ir ao encontro da História que envolve a filigrana nesta zona do país através das famílias com mais tradição na produção e uso desta técnica; registar todos os acontecimentos sociais onde as mulheres utilizam estes adereços, quer seja em casamentos, festas com ranchos folclóricos, ou nas Festas da Senhora da Agonia em Viana do Castelo, em que um dos pontos altos é a romaria da Agonia, em que "As noivas de Viana", ostentam com orgulho valiosíssimas peças de filigrana.

 

OBJECTIVOS

O objectivo do trabalho que me proponho desenvolver durante o próximo ano é documentar o enorme valor da filigrana portuguesa, da sua arte e o seu uso por parte das mulheres minhotas. Uma técnica de ourivesaria que pode ser considerada uma das formas mais características das artes portuguesas, sendo as peças produzidas no Minho reconhecidas como as mais finas e melhores elaboradas em todo o mundo. A tradição ainda é o que era em Viana do Castelo. Resta perceber e dar a entender porquê.

ANTÓNIO PEDRO SANTOS
Abril 2015

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